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Resenha 459 Lugar Feliz

Por Barbara em 16 maio • 2024
28dez • 23 Fantasia, Infantojuvenil, intrínseca, Literatura Americana, literatura estrangeira, resenha, Resenhas de Livros, Rick Riordan

Resenha 452 Percy Jackson e o Cálice dos Deuses

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Percy Jackson e os Olimpianos foi o que me aproximou da leitura. Droga, acho que fiz um editorial. Então, bom avisar que isso aqui vai ter spoilers de todas as outras sagas. Leia por sua conta e risco. 

A nostalgia é uma porta para a juventude. 

Acho que já falei isso algumas outras vezes, mas eu já havia lido, na adolescência, alguns livros da Agatha Christie que eram da coleção do meu falecido e saudoso tio Helton, mas ainda faltava algo para estreitar minha relação com a leitura. Adorava, e ainda adoro, a maneira como Agatha desenvolve as situações, embolando os acontecimentos para tentar surpreender o leitor, mas o ano era 2009 e eu, no auge de meus 13 anos, não possuía tanto apreço pelo que lia. Ainda assim, Morte no Nilo e Assassinato no Expresso do Oriente me marcaram demais. 

Mas então chega o ano de 2010 e nos cinemas está em cartaz o filme Percy Jackson e o Ladrão de Raios (dirigido por Chis Columbus que dirigiu também os dois primeiros filmes da franquia Harry Potter). Mitologia Grega sempre foi um chamariz para mim, filmes como Tróia, 300, Fúria de Titãs e tantos outros me instigavam, então uma promessa de repaginação nas histórias, modernização delas, me pareceu encantadora. E foi, saí da sala de cinema obcecado, insisti com minha mãe que passássemos na livraria para vermos se tinha o livro lá. Eu precisava de mais, precisava saber o que acontecia. Passamos e eu levei para casa um livro com capa verde e letras brilhantes. 

Olha, envelhecer é um saco, mas é melhor que a alternativa. 

Minha mãe é uma pessoa inteligente, ela sempre me incentivou a ler, sempre indicou livros, poemas, músicas, todo o tipo de arte. Quando assistíamos um filme baseado num livro ela soltava ao final (mesmo dormindo em algum pedaço do filme): “Se o filme é bom, imagina o livro” ou, então, “O livro deve ser melhor”. Em parte, eu concordo com essas afirmações, os livros sempre darão mais contexto, pois possuem espaço para tal, uma adaptação não tem a necessidade de ser totalmente fiel ao material original, algumas coisas podem não funcionar no transporte do livro para o audiovisual, mas essa é uma outra discussão, me alongo. Como filme, eu gosto d’O Ladrão de Raios, mas como adaptação ele é insuficiente.  

Pois bem, devoro as 387 páginas e me junto ao fandom que odeia o filme por ser tão diferente do livro me vejo em abstinência, à deriva, matutando sobre aquela história durante algumas semanas, até a compra de material escolar numa papelaria que também era livraria. Ali eu encontrei o restante da coleção e atazanei o juízo de minha mãe até ter todos. Hoje, Percy Jackson e os Olimpianos (PJO) é uma das minhas séries favoritas da vida. Mas precisava de outro livro? 

Muitas vezes, o problema das pessoas que são ótimas em solucionar problemas é que nem sempre elas deixam que os outros as ajudem. 

O universo de Percy Jackson cresceu muito no decorrer dos anos, Rick Riordan “expandiu a mitologia” e adicionou novos elementos com Os Heróis do Olimpo, As Crônicas dos Kane, Magnus Chase e os Deuses de Asgard e As Provações de Apolo, além de pequenas histórias, algumas mesclando as sagas. 

Mas primeiro as primeiras coisas, PJO foi originalmente lançado entre 2005 e 2009, antes do lançamento do filme pela Fox, comprada pela Disney anos depois. A série narra a descoberta de Percy Jackson sobre ser um semideus, filho de Poseidon, e os perigos e aventuras que isso acarretava. Minha lembrança afetiva é maior do que a crítica, devo confessar, mas gosto muito d’O Ladrão de Raios, O Mar de Monstros considero um dos mais fracos, repetitivo na dinâmica que se propõe; A Maldição do Titã com certeza é o melhor da saga, a história ganha um peso maior; A Batalha do Labirinto, apresenta ideias divertidas e tenta trabalhar um triângulo amoroso, que é abandonado ali mesmo, ainda bem; já O Último Olimpiano, olha, esse eu acho fraco, para mim, Rick Riordan não sabe como finalizar suas histórias, de forma geral, mas nesse livro ele estabelece uma repetição de situações que tornam o livro chato “Vem um inimigo poderoso, o exército do bem não vai conseguir detê-lo, aparece um deus ex machina”. Assim até o final. 

Com base nas minhas experiências, a última coisa de que este mundo precisava eram mais deuses. 

Como o novo livro também faz menção à saga Os Heróis do Olimpo (HDO), vou largar alguns pitacos aqui também. HDO – lançada entre 2010 e 2014 – expande o universo estabelecido em PJO, se nesse acompanhamos as aventuras numa visão grega, naquele somos apresentados ao mundo romano, estes coexistem sem conhecimento um do outro. A bem da verdade é que, no final de PJO, o autor deixa a seguinte profecia: Sete meios-sangues responderão ao chamado. Em tempestade ou fogo, o mundo terá acabado. Um juramento a manter com um alento final, e inimigos com armas às Portas da Morte afinal, assim, se utilizando desse gancho nos apresenta essa história. Alguns personagens antigos retornam, como Percy Jackson, Annabeth Chase, mas são adicionados outros Piper McLean, Leo Valdez, Jason Grace, Hazel Levesque e Frank Zhang.  

O primeiro livro, O Herói Perdido, foi uma grata surpresa, principalmente porque não estamos mais na cabeça de Percy Jackson, nessa saga o autor se utiliza de pontos de vista em terceira pessoa para contar a história, o que, particularmente, acho que dá mais profundidade aos personagens e deixa a história mais instigante. O Filho de Netuno marca o retorno do Percy e isso é ótimo, o personagem mostra que é o coração desse universo; A Marca de Atena possui momentos fantásticos e podemos acompanhar capítulos narrados por Annabeth, um grande acerto; A Casa de Hades é, com certeza, o melhor livro da saga, é onde o relacionamento de Percy e Annabeth amadurece de verdade e a ligação dos dois cresce muito; O Sangue do Olimpo é mais um final apressado, sem inspiração e, dessa vez, covarde. Não matar o Leo de verdade é pura covardia.  

Eu acreditava que todo mundo deveria ter o direito de estragar a própria vida sem a interferência de terceiros. 

E então, O Cálice dos Deuses, lançado nove anos após seu antecessor em ordem cronológica (As Provações de Apolo se passa depois dos acontecimentos dessa nova/velha saga). Serão três livros dessa “nova saga”, que é parte de PJO. 

Rick Riordan melhorou a sua escrita, apesar de ter uma fórmula estabelecida, é inegável que os diálogos estão melhores, as situações mais interessantes, os personagens mais bem escritos. É evidente que não estamos diante de um novo clássico da literatura estadunidense, nunca foi essa a intenção do autor. Mas estamos de frente de um PJO melhorado pelos anos e pela experiência. 

A história segue Percy Jackson prestes a ir para faculdade em Nova Roma, porém, ele precisa de três cartas de recomendação, assinada por três deuses diferentes e, claro, essas cartas não sairão baratas para Percy, Annabeth e Grover Underwood, o trio original. 

Viver intensamente, morrer jovem e deixar um cadáver bonito é uma filosofia que soa legal… até ser sobre seu cadáver que as pessoas estão falando. 

Rick sabe onde está mexendo, perto do lançamento da série no Disney+ de Percy Jackson, ele presenteia os fãs com uma carta de amor, numa história que trata de envelhecer, de ser criança, de saber o que fazer enquanto estamos entre o nascimento e a morte. A história, apesar de pouco movimentada, o que nos agracia com bons momentos de intimidade de Percy com sua mãe e seu padrasto, é delicioso e flui muito bem. A tradução está ótima e com adaptações que lançam um sorriso no rosto na hora: “Íris aceita PIX”, por exemplo. 

A questão da nostalgia é um exercício metalinguístico, pelo menos pra mim o foi, ao ler uma história de PJO eu busco os sentimentos bons que já me foram proporcionados anteriormente, querendo reviver momentos que ficaram parados no tempo, mas aqui o autor vai além, mostra que, em verdade, o tempo não para, que a nostalgia, em doses homeopáticas, pode ser uma aliada para suportar a vida, mas não pode ser toda a vida alicerçada nessa ideia. Sendo preciso, ás vezes literalmente, abraçar a idade e se entender quanto pessoa nesse mundo que não vai parar. 

Sabe, às vezes são as menores ondas que derrubam a gente. Os tsunamis… todo mundo sabe que são poderosos. Os maremotos são grandes e impressionantes. Mas as ondas menores? Elas têm muito poder. Provam do que o oceano é capaz, mesmo quando ninguém está prestando atenção. 

Por esses motivos, O Cálice dos Deuses é um livro divertido e possui questões interessantes, ainda, está sob uma fórmula, mas isso não deve te impedir de se encantar, rir e se emocionar com mais uma história de PJO. Que venham mais. 

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